25 de outubro de 2009

Manifesto público contra o “revide” da Segurança Pública do Rio de Janeiro

A “operação revide” que vem sendo realizada pela polícia carioca desde o dia 17 de outubro após a queda de um helicóptero no morro São João, nas imediações do morro dos macacos, já teve como saldo mais de 30 pessoas mortas e vários feridos e é resultado claro de uma política de segurança pública baseada no confronto e na criminalização da pobreza.

O Estado do Rio de Janeiro admite que a cultura da “guerra contra as drogas” ultrapassa em largo a questão da segurança pública quando responde de forma vingativa à ação de uma facção durante uma disputa por território – disputa sobre a qual o secretário de segurança admite que a polícia já tinha conhecimento antes mesmo da consolidação. A manipulação da reação pública à queda do helicóptero vem legitimando o mais recente surto de “cercos” da polícia em favelas e justificando o avanço do um projeto de militarização da vida urbana em nome da “guerra contra as drogas”. Nessa conjuntura, ações executadas sob circunstâncias de total “pânico e medo” amortecem as arbitrariedades e violações que vem sendo sistematicamente perpetradas pela política criminal em curso. No momento, o pânico que oculta mortes, ferimentos, fechamento de escolas, creches, postos de saúde e comércio, também se respalda nos grandes acontecimentos esportivos previstos para ocorrer na cidade do Rio de Janeiro. Essa nova agenda de eventos internacionais parece sinalizar que esse recrudescimento da violência institucional é apenas o início de uma nova fase que irá empalidecer as violações ocorridas nos anos anteriores.

O discurso de combate ao crime organizado e ao tráfico de drogas na lógica de guerra não tem tido nenhum impacto na desarticulação do crime. Muito pelo contrário. Segundo moradores, na comunidade da Maré, por exemplo, há 5 meses as agências de segurança pública participam das disputas por território alugando “caveirões” e lucrando com a política de “guerra contra as drogas”. Tal qual ficou evidente no episódio público que levou à morte de Evandro – do grupo Afro Reggae –, a polícia carioca não age na lógica de promover segurança, mas se mobiliza a partir dos lucros produzidos pela cultura da violência e do medo.

A sociedade carioca não pode mais legitimar uma política de segurança pública pautada pelo processo de criminalização da pobreza e de desrespeito aos Direitos Humanos. A vida dos moradores de comunidades não pode ser tratada como “jogos esportivos”. Definitivamente, não é possível jogar com vidas humanas como faz o Estado contra os pobres e negros, legitimando-se através da “guerra contra as drogas”.

As organizações da sociedade civil, movimentos sociais, professores da rede pública e outros que estão indignados com a situação que há cerca de uma semana mobiliza o Rio de Janeiro, se reunirão na segunda-feira, dia 26/10 às 15h no auditório do SEPE – Rua Evaristo da Veiga 55/7º andar –, para discutir e encaminhar ações imediatas de resistência contra a “operação revide” e discutir estratégias para exigir o fim da política de “guerra às drogas” e de criminalização da pobreza no Rio de Janeiro.

Rio de Janeiro, 23 de outubro de 2009

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25 de setembro de 2009

NOTA PÚBLICA: A Violência na Maré (Rio de Janeiro)

NOTA PÚBLICA

A VIOLÊNCIA NA MARÉ - Confrontos armados, participação de policiais em ações do tráfico e descaso de autoridades refletem uma política de segurança que desconsidera a vida do morador da favela.

Na madrugada do dia 30 de maio de 2009, um grupo de traficantes da Baixa do Sapateiro iniciou a tentativa de tomar os pontos de vendas de drogas controlados por outra facção criminosa em uma comunidade vizinha, a Vila dos Pinheiros. Oito escolas e cinco creches ficaram fechadas por mais de uma semana, deixando cerca de 10 mil alunos sem aula. Desde então, moradores do conjunto de favelas da Maré vivem uma rotina de extrema violência que é muito pouco divulgada nos meios de comunicação. As autoridades, por sua vez, permanecem com uma postura que é de descaso e, diante do apoio de agentes do Estado nas ações criminosas, também de conivência.

Os confrontos armados são diários. O movimento do comércio é constantemente interrompido e há diversos relatos de casas invadidas, quedas de luz, além de um altíssimo número de mortos e feridos. Nos primeiros quinze dias de conflitos na Maré, em junho, quando a imprensa chegou a dar algum espaço para a situação vivida pelas comunidades, 19 mortes foram noticiadas. No entanto, um levantamento entre moradores aponta para mais de 50 mortes desde o início dos confrontos, há quase quatro meses. Segundo F.S.C., moradora do Morro do Timbau, as pessoas têm medo de sair de suas casas: “Passei uma semana sem poder ver meus pais, que moram na Vila do João. Minha mãe já ficou vários dias sem sair para trabalhar e às vezes tem que voltar no meio do caminho, pois os tiroteios recomeçam e ela fica exposta".

Um dos mais graves relatos aponta que policiais teriam participado da invasão à Vila dos Pinheiros. Moradores afirmam que três veículos blindados da Polícia Militar – os chamados 'caveirões' – foram ‘alugados’ para traficantes de uma das facções envolvidas. Na Maré, esta é uma informação naturalizada. “Todo mundo aqui sabe disso. Várias pessoas viram”, afirma R.A., morador do Conjunto Esperança.

A denúncia do aluguel de caveirões chegou até as autoridades e foi noticiada por um grande jornal do Rio de Janeiro, mas não foi suficiente para iniciar um debate amplo sobre a situação de extrema violência na Maré e sobre a responsabilidade do governo. Pelo contrário: assim que a notícia veio a público, a Secretaria de Segurança se apressou em desqualificá- la, em contradição evidente com falas anteriores do secretário José Mariano Beltrame, que por diversas vezes já havia ressaltado a importância de denúncias anônimas para as investigações policiais. Nem mesmo o novo comandante da Polícia Militar, Mario Sergio Duarte, que já esteve à frente do 22º Batalhão, arriscou um pronunciamento responsável.

A reação da cúpula da segurança do estado - negando os fatos antes de investigá-los - reflete a tônica deste governo: descaso com os relatos dos moradores das comunidades pobres e acobertamento de ações criminosas praticadas pela corporação policial. O silêncio do governador Sérgio Cabral é, indiscutivelmente, um reflexo dessa indiferença com que os governantes tratam os bairros pobres do Rio de Janeiro, mas pode esconder também uma estratégia perversa: a do “quanto pior, melhor”. Depois de meses de ausência deliberada, não seria surpresa se o Estado aparecesse na Maré vendendo como “solução” a realização de mais uma mega-operação policial – como a do Complexo do Alemão, que em 2007 levou o terror às comunidades e resultou na chacina de 19 pessoas em apenas um dia.

Em menos de quatro meses, entre maio e agosto daquele ano, foram registrados pelo menos 44 mortos e 81 feridos durante as incursões policiais no Alemão. Escolas e creches também foram fechadas, e os moradores ficaram sem poder sair de casa. Constata-se objetivamente que o efeito prático das ações policiais violentas do atual governo do Rio de Janeiro é o mesmo dos tiroteios entre traficantes: o desrespeito à vida e à liberdade do povo das favelas.

No último dia 12 de julho, o jornal O Globo publicou a matéria “Covil do Tráfico”, em que a cúpula da segurança do estado, ao apontar o Alemão como reduto importante do tráfico de drogas, reconhece a completa ineficácia da ação de dois anos atrás. No entanto, as autoridades prometem repetir as mega-operações policiais, até mesmo como pré-requisito para a implantação de um modelo que vem sendo vendido como novo paradigma na política de segurança do Rio de Janeiro e que ganha contornos eleitoreiros: a chamada política “de pacificação”.

Ao contrário do que é pintado no discurso oficial, as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) não rompem com a lógica das políticas de segurança que vêm sendo implementadas seguidamente pelos últimos governos. São diversos os casos documentados de agressão física e de abuso de autoridade envolvendo agentes das UPPs. Além disso, com base em conceitos higienistas e de superioridade de classe, proíbe-se arbitrariamente certas formas de organização social e cultural construídas historicamente nas favelas. Ou seja, a atuação da polícia permanece estruturada em uma relação tensa de controle e confronto com a população negra e pobre, com a restrição de liberdades e a imposição de uma autoridade baseada na coerção de suas armas. De fato, as diversas formas de violência policial são consequência da secular orientação ao militarismo e à brutalidade dentro de comunidades pobres.

Nos últimos anos, o Estado vem seguidamente realizando ações policiais violentas e desastrosas na Maré. Foram muitos casos emblemáticos, mas apenas alguns poucos se tornaram públicos. Em dezembro de 2008, o pequeno Matheus Rodrigues, de oito anos, morreu na porta da casa de sua mãe quando saía de casa para comprar pão e foi atingido no rosto por um tiro de fuzil disparado por policiais. Menos de cinco meses depois, em abril deste ano, o jovem Felipe Correia, de 17 anos, conversava com amigos há cerca de dez metros da casa de sua família. Quatro policiais militares sem uniforme dispararam apenas um tiro de fuzil, que acertou a cabeça do rapaz. Os dois crimes envolvem policiais do 22º Batalhão, o mesmo que é acusado de alugar o caveirão.

Casos como esses trazem a certeza de que o caminho para o fim do sofrimento dos moradores não pode, sob nenhuma hipótese, passar por operações policiais violentas. No último domingo, dia 20, um ato contra a violência reuniu 600 pessoas e percorreu as comunidades da Maré afetadas diretamente com os confrontos dos últimos meses. A manifestação, não à toa, foi realizada no dia em que o menino Matheus e o jovem Felipe fariam aniversário.

As organizações abaixo-assinadas se somam em solidariedade ao povo da Maré e reafirmam, categoricamente, que não aceitam mais uma política de segurança que encare a favela como território inimigo e que obedeça a uma lógica de exclusão, em que se governa apenas para alguns e se reserva a outros a violência da repressão, do controle e, frequentemente, do extermínio.

JUSTIÇA GLOBAL


Para assinar essa nota, envie um e-mail para: manifestomare@ gmail.com

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19 de setembro de 2009

Recenseamento (Assis Valente)

Em 1940

lá no morro começaram o recenseamento
E o agente recenseador
esmiuçou a minha vida
foi um horror
E quando viu a minha mão sem aliança
encarou para a criança
que no chão dormia
E perguntou se meu moreno era decente
E se era do batente ou era da folia

Obediente eu sou a tudo que é da lei
fiquei logo sossegada e falei então:
O meu moreno é brasileiro, é fuzileiro,
e é quem sai com a bandeira do seu batalhão!
A nossa casa não tem nada de grandeza
nós vivemos na pobreza, sem dever tostão
Tem um pandeiro, uma cuíca, um tamborim
um reco-reco, um cavaquinho e um violão

Fiquei pensando e comecei a descrever

tudo, tudo de valor
que meu Brasil me deu
Um céu azul, um Pão de Açúcar sem farelo
um pano verde-amarelo
Tudo isso é meu!
Tem feriado que pra mim vale fortuna
a Retirada de Laguna vale um cabedal!
Tem Pernambuco, tem São Paulo, tem Bahia
um conjunto de harmonia que não tem rival
Tem Pernambuco, tem São Paulo, tem Bahia
um conjunto de harmonia que não tem riva

Samba de 1940. Composto por Assis Valente.

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Vai

Vai

Até onde der

Anda, se arrasta

Pula, se joga.

Vai

Até onde pode

Pede, chora

Treme, grita.

Vai

Até onde quer

Segura, não larga

Puxa, usa a força.

Vai

Até onde é possível

Vai

O movimento é incessante.

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2 de agosto de 2009

Direitos Humanos?

Artigo I*: Todas as pessoas nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotadas de razão e consciência e devem agir em relação umas às outras com espírito de fraternidade.
A cada sete segundos, morre uma criança de fome. Documento-base da Campanha da Fraternidade de 2005
Para cada dólar que a ONU gasta em missões de paz, o mundo investe 2 mil dólares em guerras.Documento-base da Campanha da Fraternidade de 2005
Em 2003, o total de gastos militares somou 960 bilhões de dólares. Documento-base da Campanha da Fraternidade de 2005
Nos 19 séculos anteriores ao século XX, as guerras acabaram com a vida de 40 milhões de seres humanos. Em apenas um século— o XX — o ser humano desenvolveu técnicas mais avançadas de genocídio e conseguiu eliminar110 milhões de seres humanos.

Artigo II*: Toda pessoa tem capacidade para gozar os direitos e as liberdades estabelecidos nesta Declaração, sem distinção de qualquer espécie, seja de raça, cor, sexo, língua, religião, opinião política ou de outra natureza, origem nacional ou social, riqueza, nascimento, ou qualquer outra condição.
Dois terços dos analfabetos do mundo são do sexo feminino e 80% dos refugiados são mulheres e crianças.

Artigo III*: Toda pessoa tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal.
O número de pessoas que vivem com o HIV continua crescendo e passou de 35 milhões em 2001 para 38 milhões em 2003.
A cada minuto, uma criança morre de AIDS.

Artigo IV*: Ninguém será mantido em escravidão ou servidão, a escravidão e o tráfico de escravos serão proibidos em todas as suas formas.
Segundo a UNICEF, 1,2 milhão de crianças são vendidas por ano.

Artigo V*: Ninguém será submetido à tortura, nem a tratamento ou castigo cruel, desumano ou degradante.
800 milhões - entre eles 150 milhões de crianças - sofrem de desnutrição no planeta;
Cerca de 24.000 pessoas morrem diariamente devido à fome, ou a causas relacionadas com a fome. Três quartos das mortes dão-se em crianças com menos de cinco anos..[ONU]
Atualmente, 10% das crianças dos países em desenvolvimento morrem antes dos cinco anos.CARE

Artigo XXIII*: 1.Toda pessoa tem direito ao trabalho, à livre escolha de emprego, a condições justas e favoráveis de trabalho e à proteção contra o desemprego.
54 milhões de brasileiros vivem abaixo da linha da miséria: recebem menos de meio salário mínimo por mês;
1 em cada 3 habitantes do planeta (cerca de 1,8 bilhões) vive com menos de US$ 2 ao dia;

Artigo XXVI*: 1. Toda pessoa tem direito à instrução. A instrução será gratuita, pelo menos nos graus elementares e fundamentais. A instrução elementar será obrigatória. A instrução técnico-profissional será acessível a todos, bem como a instrução superior, esta baseada no mérito.
Há 113 milhões de crianças fora da escola em todo o mundo;

Artigo XVII*: 1. Toda pessoa tem direito à propriedade, só ou em sociedade com outros.
As 18 maiores propriedades do Brasil somam 18 milhões de hectares e tem um território equivalente a Portugal, Suíça e Holanda juntos. 18 senhores cercaram para si o espaço equivalente a 3 países europeus.

* Declaração Universal dos Direitos Humanos.

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30 de julho de 2009

Sem ser conivente

Os compromissos cotidianos fizeram, nas últimas semanas, que eu me afastasse do Experimentando Versos. Contudo, estou voltando a atualizar o blog com novos textos e, em breve, com novas poesias. Para iniciar esta nova fase de publicações, cito um trecho do educador brasileiro Paulo Freire:

“Não posso virar conivente de uma ordem perversa, irresponsabilizando por sua malvadez, ao atribuir a ‘forças cegas’ e imponderáveis os por elas causados aos seres humanos. A fome frente à abastança e o desemprego no mundo são imoralidades e não fatalidades como o reacionarismo apregoa com ares de quem sofre por nada poder fazer. O que quero repetir, com força, é que nada justifica a minimização dos seres humanos, no caso das maiorias compostas de minorias que não perceberam ainda que juntas seriam a maioria. Nada,o avanço da ciência e/ou da tecnologia, pode legitimar uma ‘ordem’ desordeira em que só as minorias do poder esbanjam e gozam enquanto as maiorias em dificuldades até para sobreviver se diz que a realidade é assim mesmo, que sua fome é uma fatalidade do fim do século. Não junto à minha voz aos dos que, falando em paz, pedem aos oprimidos, aos esfarrapados do mundo, a sua resignação. Minha voz tem outra semântica, tem outra música. Falo da resistência, da indignação, da ‘justa ira’ dos traídos e dos enganados. Do seu direito e do seu dever de rebelar-se contra as transgressões éticas de que são vítimas cada vez mais sofridas.” (1996, p. 101)

Freire, Paulo. Pedagogia da Autonomia. Petrópolis: Editora Vozes, 1996

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27 de junho de 2009

Sem anestesias

Dor. Dói tudo

Doem os corpos que caem alvejados

E as crianças na rua vagando sem rumo

Doem todos aqueles sonhos abortados.

Dói ver as portas e as janelas cerradas

As grades de ferro cercando os muros

O medo estampado covardia nas caras

Doem todos aqueles gritos mudos.

Dói o câncer, a sífilis

E sua legião de enfermos

Dói a AIDS, a pneumonia, a hepatite

E as coisas que ainda não sabemos.

Dói a fome, a sede

Pior, tem comida, tem água sobrando

Dói a desnutrição e suas crias

Esqueletos humanos, crianças apáticas agonizando.

Dói a estupidez de mais uma guerra

Já foram tantas e outras mais diferentes

Dói ver o descolorido flagrante de nossa época

Pior, como dói saber que poderia ter sido diferente.

Doem todas as nossas misérias históricas

As desigualdades seculares e hipócritas

Dói o preconceito, a violência e o racismo

Dói não olhar o que é preciso ser visto.

Doem na pele as mentiras que engolimos

E todas as falsidades que alimentamos

Dói perceber que nunca fomos mais do que isso

E saber que assim jamais seremos diferentes do que somos.

A dor é profunda e às vezes dá vontade de parar

Mas a roda viva continua a todo vapor a girar e girar

Então, apesar dos males e das tristezas é preciso acreditar

Que, mesmo que tudo diga o contrário, é possível mudar.

E se a dor for ainda mais pungente e mordaz

Que nossos desejos de transformar a vida

Então é que num momento simples e fugaz

A gente pode descobrir que ela é mesmo bonita e bonita.

E como as águas da chuva que caem no chão

Ou as nuvens que passam velozes no céu distante

A vida corre depressa, e não espera não

É preciso saber fazer valer a pena cada instante.

Pode até doer as tristezas, mas sempre haverá alegrias

E motivos pra continuar firme caminhando e acreditando

Pois apesar de todas estas dores não quero anestesias

Prefiro de olhos abertos e pés no chão, continuar sonhando.


* Poesia escrita para a qualificação da dissertação "Não dá pé. Não tem pé nem cabeça. Não tem ninguém que mereça. Não tem coração que esqueça": a "chacina do PAN" e a produção de vidas descartáveis na cidade do Rio de Janeiro.


Em 27 de julho de 2007 o Conjunto de Favelas do Complexo do Alemão, Rio de Janeiro, foi palco de uma mega-operação policial que contou com mais de 1.000 policias e que apreendeu 14 armas e matou 19 pessoas. Inúmeros relatórios e entidades, movimentos sociais e pensadores denunciaram a violência da operação, acusando a polícia de protagonizar um verdadeiro massacre contra a população do Complexo do Alemão. a "chacina do PAN", é um acontecimento fundamental para pensarmos quanto a vidas das populações pobres da cidade do Rio de Janeiro se transformam em vidas descartáveis contras as quais qualquer tipo de atrocidade não é considerada crime.

Hoje faz dois anos que a população do Complexo do Alemão foi atingida pela força policial, mas quantos outros tantos massacres não ocorreram desde aquela data? quantos ainda não irão acontecer?

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29 de abril de 2009

Fundamental mesmo é o amor

   Em novembro de 2007, o médico estadunidense Patch Adams protagonizou uma das melhores entevistas já dadas - e que eu pude ver - no programa "Roda Viva", TV Cultura. Em suas falas, Patch não apenas fez duras críticas a política imperalista de seu país como apontou que o melhor remédio não é rir, mas a amizade. As palavras de Patch já falam por si mesmas: 

"No início, fiquei constrangido com o filme. Sou ativista político, trabalho pela paz e pela justiça. Considero fascista o meu governo. Se não mudarmos de uma sociedade que venera dinheiro e poder para uma que venere compaixão e generosidade, não haverá esperança para a sobrevivência do ser humano neste século."

"Não concordo com 'rir é o melhor remédio'. Eu nunca disse isso. A amizade claramente é o melhor remédio. É a coisa mais importante na vida. São nossas relações com aqueles que amamos." 

"Fiz o filme porque não consegui arrecadar dinheiro durante 28 anos para erguer o que seria o único hospital-modelo do mundo para os problemas de que ouço falar por médicos do mundo todo. Por ser um hospital tão radical, ninguém quis me ajudar. A Universal Studios prometeu erguer nosso hospital. O filme rendeu mais de quatrocentos milhões de dólares. Ninguém ligado ao filme veio me dar nem um dólar". 

"No mundo todo, não há hospital alegre. São todos hierárquicos. Hospitais ricos não são alegres porque são comerciais. Não há tempo para gastar com pacientes. Os médicos são arrogantes, todo-poderosos e tratam todos os outros... Não todos os médicos, mas a maioria." 

"Tenho vergonha de ser americano. Somos o país terrorista. Todos sabemos que não existem mais países. É a globalização. Não existem países. É uma ilusão. As transnacionais são as donas do mundo. O século XX foi o último com países. Não significa nada. Vindo para cá, o que vi de Brasil? Então… vocês estão destruindo o que é Brasil, a Amazônia. Nunca tive nacionalismo. O nacionalismo é um problema. Historicamente, sempre foi um problema. É uma definição absurda, arbitrária de que existe algum tipo de fronteira na terra. A população indígena dos Estados Unidos achou incrível alguém poder pensar que possuía a terra. Tenho vergonha sim. O mundo todo teme o meu país. E as pessoas estão bravas com ele. Não sou esse tipo de gente. Quero condenar o meu país à prisão perpétua por assassinato em massa."

"A cada ano que passa, fico mais humilde quanto ao conceito da cura. É arrogância e é um perigo entrar na medicina ou em qualquer arte de cura pensando no restabelecimento. Aprenderá humildade na primeira semana. O seu trabalho não é curar, é cuidar. Você sempre pode cuidar. Totalmente. Todo dia, o dia todo. Sempre pode cuidar. Nunca, jamais, antes do tratamento pode garantir cura. Jamais. Jamais. Nunca. Não importa a prática com essa doença, nunca poderá saber, antes de um tratamento… a conseqüência exata desse tratamento. Falou algo de que discordo: a indústria farmacêutica preocupa se com a cura. Ela nunca se preocupa com a cura. Só se preocupa com o lucro. Tem a mais alta margem de lucro do que qualquer outra no mundo. Vende substâncias sabendo, por pesquisa, que não ajudam. Mas falsifica a pesquisa. Assim, pílulas, pílulas perigosas serão dadas. Creio que todo remédio psiquiátrico seja imperícia. Anti depressivos, ansiolíticos. Sabe que, em toda a psiquiatria, não existe um livro de psiquiatria onde haja uma declaração sobre saúde mental. Nem existe um enfoque para a saúde mental."



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9 de abril de 2009

No programa Atitude.com (TVBrasil)

             No dia 08 de abril  participei do programaAtitude.com”, da TVBrasil. A gravação do mesmo foi ao vivo e transmitido às 18 horas (horário de Brasília). O tema do encontro foi “medos urbanos”. Falei um pouco das articulações entre mídia, violência e medo, especificamente na cidade do Rio de Janeiro e do desenvolvimento de minha pesquisa de mestrado em psicologia. Participei na condição de psicólogo e pesquisador na área de direitos humanos, mídia e violência. Também participaram do programa a socióloga Vera Malaguti Batista (Secretária-geral do Instituto Carioca de Criminologia); a psicóloga Miriam Farias  e, por telefone, a Prof. de Comunicação Social (PUC-PR) Celina Alvetti. Segue abaixo algumas fotos tiradas no programa:


(Liliane Reis, Eu, Vera Malaguti e a Mirian Farias) 


(Liliane Reis, Eu e a Vera Malaguti)


(Eu, Vera Malaguti e a Mirian Farias)


(Banda Soubrawn)

Créditos das Fotos: Aline B. F.Gomes

Mais Fotos AQUI

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6 de abril de 2009

Pequenos poemas em prosa (Charles Baudelaire)

    “Bem em frente de nós, na calçada, estava plantado um homem de bem, de uns quarenta anos, de rosto cansado, barba grisalha, tendo numa das mãos um menino e sobre o outro braço um pequeno ser ainda muito frágil para andar. Ele cumpria o papel de uma babá e trazia os seus filhos para tomar o ar da noite. Todos em farrapos. Esses três rostos estavam extremamente sérios e seus seis olhos contemplavam fixamente o novo café com igual admiração, mas, naturalmente, com as nuances devidas às idades.
   Os olhos dos pais diziam: ‘Que beleza! Que beleza! Dir-se-ia que todo o ouro do pobre mundo fora posto nestas paredes.’ Os olhos do menino: ‘Que beleza! Que beleza! Mas é uma casa onde só pode entrar pessoas que não são como nós.’ Quanto aos olhos do menor, eles estavam fascinados demais para exprimirem outra coisa senão uma alegria estúpida e profunda.
    Os cancioneiros dizem que o prazer torna a alma boa e amolece o coração. A canção tinha razão nesta noite relativamente a mim. Não somente eu estava enternecido por esta família de olhos, como me sentia envergonhado por nossos copos e nossas garrafas, maiores que nossa sede. Virei meus olhos para os seus, querido amor, para ler neles o ‘meu pensamento’; mergulhei em seus olhos tão belos e tão bizarramente doces, nos seus olhos verdes, habitados pelo Capricho e inspirados pela Lua, quando você me disse: ‘Não suporto essa gente com seus olhos arregalados como as portas das cocheiras! Será que você poderia pedir ao maître do café para afastá-los daqui?”
   É tão difícil o entendimento, meu caro anjo, e tão incomunicável é o pensamento mesmo entre as pessoas que se amam.”

Charles Baudelaire. Pequenos poemas em prosa. Record, 2006.

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30 de março de 2009

Sem confete e sem alegria

Outra ilusão, não foi nada

Desta vez o seu coração sabia

Que aquele relacionamento era uma cilada

Sem confete e sem alegria.

 

Mas sempre machuca

Os dias corriam e o amor não vinha

E a solidão intrusa

Insistia em ser a sua única e fiel companhia.

 

Ela se olhava no espelho

Inquiria-se se era mesmo bonita

Virava-se ao avesso

Atrás de uma resposta, alguma pista.

 

A solução, decidiria, era não amar

E não esperar que um dia fosse amada

Pois assim não ia se deixar

Não sairia machucada.

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3 de março de 2009

E agora José? (3 de março de 1985)

Depois do aniversário do Blog Experimentando Versos (1 ano!), agora é a vez do seu humilde aprendiz de poeta soprar algumas velinhas - para ser sincero: vinte e quatro velas. Dia 3 de março de 1985 este experimentador de versos e da vida nasceu lá em São Francisco, cidade de Niterói.

Como diz o Chico: "roda mundo, roda gigante / roda moinho, roda peão / o tempo rodou num instante, nas voltas do meu coração"

Pra lembrar o Cazuza e o Renato Russo: o tempo não pára e temos todo o tempo do mundo: somos tão jovens.

Pra me lembrar:

Ousar experimentar

Não

Não faço poesias

Experimento versos

Busco na rotina normalizante dos dias

As brechas em que escapo

E na incerteza de uma linha nova

Reivindico o meu espaço

Crio uma canção, invento uma história

Vivo os meus momentos tão indeterminados

Com o gosto bom da vitória

Por não precisar abrir mão dos sonhos

Que tenho sonhado

Não alimento as ilusões

Pois sempre ando ocupado

Envolvido com as minhas próprias paixões

Vivo, canto, ando, choro

Nas intensidades de um sentimento

Experimento nos versos

Ir além do que mecada momento

Sentir o que não vivi, o que não planejei

Ousar experimentar

E ver na poesia

Nos versos

Os encontros e as partidas

Em suas múltiplas linhas

A vida.

Em agradecimento a todos os amigos e as amigas (das escolas, do teatro, dos cursinhos, das bandas, da música: do samba, do rock, da bossa, das viagens diarias de ônibus, dos encontros casuais e inesperados, do blog, do msn, da uerj, da uff, da famath, da poesia, da prosa etc e tal ) que durante estes vinte poucos anos atravessaram o palco de minha vida e me ajudaram a encenar inúmeros espetáculos de alegria e, às vezes, de dor. Agora, bola pra frente.

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17 de fevereiro de 2009

O pierrot e a colombina

A quarta é de cinzas
Mas o batuque do samba não se apaga
E antes de raiar a quinta
Já se ouvem novas batucadas.

Vai o Pierrot e dança, pula, balança
No meio da multidão
Atrás de sua colombina e na esperança
De conquistar-lhe o coração.

O passista faz desenhos no ar com seus movimentos
Voa sem sair do chão e gira com o seu corpo
Desafia as leis do espaço e do tempo
Sorri, mas deixa escapar uma lágrima pelo rosto.

As crianças brincam e seguem o bloco pela rua
O rei mono, agora mais magro, desfila sorridente
Vai sambando ao lado da rainha e de todas as suas
Muitas princesas e pretendentes.

A alegoria passa e vai em direção ao desfile
As baianas rodam para aquecer e comemorar
Mas, sem avisar, o carro quebra e o dia fica mais triste
Até que o samba toca alto e todos se esquecem das lágrimas
[e vão sambar.

Nem tudo é festa,
A menina quer uma fantasia de fada
Mas a mãe não pode lhe dar mais do que lhe resta
E o que tem já não é quase nada

Na rua alguns poucos mascarados
E o pessoal da limpeza varrendo o chão
O cavaquinho e o pandeiro agora silenciados
Não tocam, mas bate forte o coração.

Na quadra a espera pela apuração dos votos
Em casa o saudosismo dos mais velhos a discutirem
Na rua a chuva caindo dispersa e passiva sobre os corpos
Apressados por se esconderem embaixo das marquises.

E em cada canto algum samba entoando
Uma alegria dispersa e perdida
Por entre letras de sambas de outros carnavais
Cantando nossas muitas tristezas e alegrias

A lembrança de tempos que não voltam mais
E a busca de dias diferentes
Onde possamos levar nossos blocos e sambas em paz
E o pierrot e a colombina possam se amar ardentemente.

Na quarta o carnaval acaba
Mas não termina
O samba invade cada madrugada
E não se esvai com as cinzas.

O pierrot, enfim, encontrou a sua colombina
E eles vão de mãos dadas pelo caminho
Ele diz que a ama e a amará por toda sua vida
E ela desconfia desse amor tão repentino
Mas deixa ele pensar que ela acredita...

* Esta poesia foi publicada originalmente em fevereiro de 2008 aqui no Experimentando Versos. Como dizem, relembrar é viver...

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8 de fevereiro de 2009

Cidade Maravilhosa?

(Por Ratão Diniz)

Neste caso, em que a fotografia acima expõe uma realidade corriqueira, mas, ainda assim, ignorada pelos veículos de comunicação das grandes empresas de midia, as palavras se tornam supérfluas. A imgem já diz tudo.

"Nossa dor é comemorada como indicador de eficiência policial". E até quando?

Tomei a liberdade de retirar a imagem do excelente "fazendo media". Visite o site: Aqui

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2 de fevereiro de 2009

Um convite para dançar II

Neste ano de 2009 ainda não publiquei nenhuma poesia inédita porque preciso, antes, registrar as novas obras no cartorio de direitos autorais da Fundação Biblioteca nacional. Sou a favor da livre circulação das obras literarias, musiais, cientificas, ou seja, sou contra o copyright e a favor do chamado "copyleft". Porém, o minimo que qualquer autor merece é ser reconhecido por sua obra. Já encontrei obras minhas, inclusive a descrição que tenho no blog, circulando no orkut e em outras paginas da internet sem que me dessem os devidos creditos. Qualquer um pode reproduzir as poesias que estão neste blog, mas, por favor, não se esqueçam de colocar o nome do pobre autor e de citarem o link do blog. Ser autor não pode ser sinonimo de ser dono de obras literarias porque estas não são mercadorias, contudo, não se pode desconsiderar o trabalho daquele que produziu as mesmas. Então, mais uma vez republico uma poesia aqui:

Havia uma pequena
Multidão
Mas eles viram apenas
A si próprios
E correndo em direção
Ao que seus atentos
Olhos indicavam
Sorriram
Quando, enfim,
Estavam
Um diante do outro
Não se falaram
Não piscaram
Ele esticou a mão calejada
Ela colocou os seus dedos finos
Entre os deles e
Dançaram, dançaram
Abrindo espaços e paredes
E todos concentrados
Olhavam-nos
Ela flutuava
Ele tocava o céu
E quando a última
Música tocou
Era apenas o começo.

Em agradecimento a Maria Clara (Clarinha) por ter me lembrado destes versos e ter me inspirado a fazer outros.

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24 de janeiro de 2009

Aos que ousaram desobedecer

Nós, como defendia Paulo Freire em sua obra, temos que lutar para não sermos apenas meros atores coadjuvantes em nossas próprias historias de vida. Em Israel, um grupo de jovens na faixa etária entre 16 e 19 anos, estudantes secundaristas, ousaram desobedecer às ordens instituídas e se rebelaram, negando-se em pegar em armas e participarem do massacre na Palestina. Tais jovens, chamados de Shministim, foram presos por não concordarem em cooperar com o atentado a humanidade patrocinado pelo governo Israelense na Faixa de Gaza. Desde o dia 18 de Dezembro, há uma campanha de envio de mensagens ao governo de Israel para mostrar a este que tais jovens não estão sozinhos e que muitos são aqueles que apoiam sua iniciativa e são absolutamente contra a limpeza étnica orquestrada por este país na Palestina. Estes jovens ousaram protagonizar o que muitos de nós esquecemos que somos capazes de produzir: um mundo diferente. Ao dizerem não a estupidez e a violência que dilaceram o povo palestino, eles mostraram que por mais que se tente minar com as utopias sinceras e os sonhos, ambos estarão sempre inscritos nas linhas de nossos horizontes. Enquanto houver quem diga não e se recuse a participar inerte destes teatros cotidianos de falsidades e imundices, a esperança brotará fértil nos caminhos do presente e, apesar das pedras e das perdas no meio do caminho, o sol brilhará dissipando as escuridões que pairam sobre estes dias tão sombrios. A estes jovens dou meu apoio e meu respeito.

Veja o Vídeo com a mensagem dos jovens Shministim no YOU TUBE:
Aqui

Entre no site da campanha e envie, também, uma mensagem de apoio:
Aqui


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20 de janeiro de 2009

"Nasci en Palestina"

Esta chacina na Palestina, orquestrada pelo governo israelense, não mostra apenas o martírio de um povo que há mais de quarenta anos tem seu território invadido e sua vida supliciada, nos mostra, sobretudo, o quanto vivemos num mundo no qual se produz tanto seres humanos dóceis e domesticados como lixo humano descartável. Aos primeiros é reservado o reino do consumo e dos inúmeros prazeres oferecidos pelas indústrias capitalísticas; aos últimos, é dado como benção o martírio que leva de suas casas até a lata de lixo mais próxima. Qual a diferença entre os famintos da África, os favelados do Rio de Janeiro, os pobres da Colômbia, os moradores de rua de São Paulo e os palestinos em Gaza? Todos estes se transformaram em vidas nuas, isto é, vidas contras as quais qualquer tipo de atrocidade pode ser cometido impunemente. Assim sendo, o nosso século pode ser novo, mas ainda engolimos as mesmas e velhas mentiras que justificam as guerras, que legitimam as matanças, que naturalizam as desigualdades, que criminalizam os pobres. Neste mundo atual, atordoado por cifras incalculáveis e atolado em sangue e miséria, a democracia é uma farsa que alimenta cotidianamente a nossa paralisia diante de nosso próprio estado. O que podemos fazer, no mínimo, por nós mesmos é não aceitarmos o mundo como ele é, mas ousarmos transformá-lo. Talvez os reacionários de plantão digam que isso não passa de mais um sonho romântico e ingênuo; os sonhadores, por sua vez, confessem que este sonho também é deles. Por minha parte, sei o quanto uma vida sem sonhos não passa de um pesadelo real, mas que, por outro lado, apenas sonhar não faz com o movimento das águas do mundo mudem seu curso.

Por fim, vale a pena ouvir / ver o vídeo que fiz da canção “Naci en Palestina”, da cantora Amel Mathlouthi.


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18 de janeiro de 2009

Deus lhe pague

O mundo é um moinho; a vida, ou melhor, roda viva, insiste em girar, rodar, deixando-nos em voltas com a flor e o espinho; com casas simples e baldias, que atravessam nossos caminhos. Na praça vazia um grito um ai, casas esquecidas com viúvas nos portais. Aliás, quantas pedras, buracos e perdas nestas estradas por onde passam, em procissão, mas sem holofotes, os retirantes de uma vida seca e ressequida. Pela varanda, flores tristes e baldias. Deus lhe pague: pela fumaça, pela cachaça, pelas mortes, pela fome, pelas chacinas tão irreais, mas, ainda assim, tão recorrentes. E eu que não sou crente, peço a Deus por esta gente; gente humilde e pobre; gente que, em nossos dias, virou lixo e, por isso, é exterminada a luz do dia.

O pequeno trecho acima faz parte da minha dissertação de mestrado cujo tema refere-se à produção de vidas descartáveis e de subjetividades submissas, hoje, na cidade do Rio de Janeiro. No mesmo, faço referência a algumas canções, como: o mundo é um moinho (Cartola); Roda Viva (Chico Buarque); A flor e o espinho (Nelson Cavaquinho, Guilherme de Brito, Alcides Caminha); Ponta de areia (Milton Nascimento & Fernando Brant); Gente humilde (Garoto, Chico Buarque e Vinicius de Moraes); Deus lhe pague (Chico Buaque).

Abaixo está uma montagem de fotos que fiz sobre a música “Deus lhe pague” de Chico Buarque e que publiquei, também, no youtube.


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16 de janeiro de 2009

É doce morrer no mar

Em suas canções, um de seus personagens principais era o pescador da cidadezinha que acordava sedo, ouvia o canto das ondas junto com o nascer da alvorada distante, para jogando-se ao mar com seu barquinho, aventurar-se nas águas e se tornar meio homem e meio peixe; plantada na areia, a moça da vila, com seus sonhos de menina e sua postura de mulher, esperava ansiosa o retorno de seu amante dos braços de Yemanjá. Dorival Caymmi cantou os costumes e a rica tradição do povo baiano. Cantou com a voz grave, acompanhado de um violão afinado e de belas melodias. Músico singular dentro da história da música brasileira, assinou no chão de areia o seu nome, mas só que este, as ondas não vão apagar. Parafraseando o mesmo, é doce morrer mar:

É doce morrer no mar

Nas ondas verdes do mar

É doce morrer no mar

Nas ondas verdes do mar

A noite que ele não veio foi

Foi de tristeza prá mim

Saveiro voltou sozinho

Triste noite foi prá mim

É doce morrer no mar

Nas ondas verdes do mar

É doce morrer no mar

Nas ondas verdes do mar

Saveiro partiu de noite foi

Madrugada não voltou

O marinheiro bonito

Sereia do mar levou

É doce morrer no mar

Nas ondas verdes do mar

É doce morrer no mar

Nas ondas verdes do mar

Nas ondas verdes do mar meu bem

Ele se foi afogar

Fez sua cama de noivo

No colo de Iemanjá

É doce morrer no mar

Nas ondas verdes do mar

É doce morrer no mar

Nas ondas verdes do mar


(letra e musica de Dorival Caymmi)


Ouça:

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10 de janeiro de 2009

Que a chuva caia (Palestina)

As "poesias palestinas de combate" representam o grito de um povo quedécadas luta, resiste e persiste contra a ocupação criminosa de seu território; o extermínio de sua gente; o ultraje de suas tradições e crenças. Um povo feito de refugiados e apátridas; expulsos de suas casas; banidos de seu horizonte; arrancados de suas raízes. Povo que sobrevive como que enclausurado num gueto, sufocado atrás de muros, afogados em poças de sangue. Sua historia é reescrita com mentiras que dilaceram seu passado; seu presente é assassinado com mísseis despejados sobre crianças. Por este povo e por todas as suas lutas, publico a poesia abaixo de autoria da poetisa palestina Farid Suwwan:

A Peste

Quando a peste se alastrou pela minha cidade

Saí

Com o peito descoberto

Gritando ao vento a tristeza implacável.

Sopra, ó vento

E traz-nos as nuvens

Faz com que a chuva caia

Para que purifique o ar de minha cidade

Para que lave as casas, as montanhas e as árvores

Sopra, ó vento

E conduz as nuvens até nós

Que a chuva caía

Que a chuva caía

Poesia retirada do livro: Poesia Palestina de Combate. Rio de Janeiro: Editora Achiamé, S/d

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